CIGANOS
O povo cigano ou rom (em português: homem, termo adotado pela União Romani Internacional – gitano em espanhol e gypsy em inglês) é o termo utilizado para designar às populações nômades quem tem origem comum a Índia. Entretanto a origem desse povo é controversa. Uma das principais razões para tal mistério é devido a sua cultura não ter tradição escrita (ágrafa). Dessa forma não há registros gravados feitos por pelo rom de sua origem ou história. Sua vida sempre foi estudada por não-ciganos, observada por um ponto de vista de quem está do lado de fora. Registros datam os primeiros movimento de migração no século X. os primeiros grupos de ciganos a chegarem a Europa Ocidental fantasiavam suas origens, atribuindo uma procedência lendária e misteriosa, em parte para proteger-se de uma população em que era minoria, em outra como forma de encenar espetáculos e atividades.
A procedência do povo roma tem sido objeto de estudos e também de fantasias por todo o mundo e em diferentes épocas. Já foram considerados descendentes de Caim, outros como magos caldeus ou uma das tribos de Israel fugida do Egito. Uma antiga lenda balcânica os tornou forjadores dos pregos da cruz de Cristo, motivo pelo qual foram “condenados” a caminhar mundo afora (não há nenhuma evidência que situe os ciganos no Oriente Médio nessa época).
O que é aceito pela maioria dos historiadores é que os ciganos abandonaram a Índia em torno do Ano 1000 e atravessaram o que é hoje o Afeganistão, Irã, Armênia e Turquia. Desde a sua chegada a terras européias, uma das fases mais notórias dos ciganos foi a sua língua, estranha e diferente das faladas então na Europa. Até o século XVI, muitos autores chamavam a língua dos ciganos de egípcia, pelo fato da crença popular na época acreditar ser essa a origem desse povo. Estudos recentes mostram o parentesco da língua romani com o punjabi e o hindi ocidental com várias coincidências nas estruturas, mas que não se transcreve. Entre as línguas que mais influenciaram nas formas modernas de romani estão o grego, o húngaro e o espanhol. Até os dias de hoje é a língua uma das formas que os ciganos têm de identificar um roma verdadeiro. Como a língua é passada de pai para filho, é extremamente proibido ensinar o idioma para pessoas não-ciganas.
Devido às guerras entre bizantinos e turcos no século XV, os roma iniciaram uma nova migração (a primeira documentada) absorvendo o vocabulário de outras regiões da Europa. Em sua chegada a Paris, as pessoas se acotovelavam nas ruas para ver os ciganos que causavam fascinação pelo seu aspecto miserável e estranho aos hábitos da época. Viviam de magia e pequenos furtos, até serem expulsos pelo bispo local. Essa crônica resume a tipificação negativa dos ciganos que se manteve até hoje.
Depois de queimados como bruxos na Idade Média, o século XVI pode ser considerado a época de ouro dos ciganos na Europa. Entre a hostilidade e a fascinação, a cultura cigana se dispersou pelo continente, misturando-se com as culturas e línguas locais. Lentamente se converteram em um desafio aos poderes estabelecidos, a população sedentária e a religião dominante que os obrigava a escolher entre o sedentarismo e a vida nômade. Na época do descobrimento da América no final do século XV, apesar da boa acolhida inicial, começaram a ser perseguidos, marginalizados, expulsos, castigados e escravizados (na Romênia, a escravidão foi abolida somente em 1864). Daquela época até os tempos atuais, houve o desencontro entre ciganos e não-ciganos.
Sua tenacidade, estratégias de ocultamento, semi-nomadismo, adaptação a legislação instável, capacidade de cruzar fronteiras fez com que os ciganos europeus resistissem a assimilação e conservassem suas próprias características culturais, mais ou menos intactas até hoje.
No século XVI os ciganos, paralelamente a diáspora dos europeus. No final do século XVII e meados do XIX produziu-se outro movimento em direção as Américas devido à perseguição, sobretudo na França e Alemanha.
O início do século XX a perseguição ficou cada vez mais dura na Europa. O governo da Prússia decidiu acabar com a “doença cigana” mediante um acordo internacional com a finalidade de acabar com sua forma de viver. O censo de ciganos multiplicou-se em toda Europa. O auge do nazismo e os excessos da Segunda Guerra Mundial foram notórios por sua crueldade com os ciganos. O Centro de Investigação para Higiene Racial e Biologia Populacional do Reich ordenou a internação e execução em massa, ou porraimos na língua cigana. As estimativas vão de 500 mil a 1 milhão e meio de ciganos mortos nesse período.
Na Europa Central e do Leste, sob regimes comunistas, os ciganos sofreram políticas de assimilação e restrições da liberdade cultural. O uso da língua romani, a representação de música rom e o estilo de vida nômade foram proibidos. Mulheres ciganas foram submetidas a esterilizações como parte da política do Estado para reduzir o seu crescimento demográfico. No início dos anos 1990, a Alemanha deportou dezenas e milhares de imigrantes a Europa Central e Oriental.
Com a queda do muro de Berlim, o fim os Estados autoritários da Europa Central e do Leste e a crise econômica, começou a terceira grande diáspora cigana. Como nas duas últimas, do leste para o oeste, de 200 a 280 mil ciganos seguiram para o oeste entre 1960 e 1997.
Segundo o Banco Mundial, na Europa há entre 7 a 9 milhões de ciganos, dos quais cerca de 600 mil vivem na Romênia. 11% da população da Macedônia são ciganos. No Brasil, estima-se que tenham entre 700 mil a 1 milhão de ciganos.
Em julho de 2010, o presidente francês, Nicolas Sarkozy decidiu promover o retorno em massa dos roma à Romênia e Bulgária.
Na Europa os ciganos são divididos em grupos étnicos:
Rom ou roma: presentes na Europa Central e do Leste.
Sinti: encontrados na Alemanha.
Calo: ciganos da Península Ibérica (presentes na América Latina, inclusive Brasil).
Romnichals: (principalmente presentes no Reino Unido e ex-colônias britânicas como Estados Unidos e Austrália).
Os roma não tem uma religião própria, um deus próprio, sacerdotes ou cultos originais. O mundo sobrenatural é constituído por forças benéficas (Del ou Dével) e maléficas (Beng). As crenças ciganas incluem uma série de entidades, cuja presença se manifesta, sobretudo à noite. De um modo geral, os romãs parecem ter se adaptado às religiões nos paises em que se hospedam, apesar da religiosidade confessa ser predominantemente católica.
Os primeiros ciganos a chegarem ao Brasil pertenciam ao grupo Calo (ou kalon), vindos de Portugal junto com D. Carlos V, em 1574. os ciganos acompanhavam os exércitos mouros que invadiram e dominaram Portugal por quase 400 anos e permaneceram lá após o termino desse domínio. Desde Átila o Huno, os ciganos acompanhavam os grandes conquistadores, não para lutas, mas por sua habilidade com a forja. Foram enviados para o Brasil como forjadores para a manufatura de armas e ferraduras, além dos famosos tachos de cobre e alambiques. Foram nomeados oficialmente como “festeiros da corte” e suas canções estão entre as primeiras a serem ouvidas no Brasil. Todas as festas eram incumbências dos ciganos, até mesmo as cavalgadas (antigos rodeios) por sua exímia arte no domínio dos cavalos.
Há uma maior tendência a conservar as tradições entre os ciganos, assim como a língua e costumes próprios. Sua origem de paises essencialmente agrícolas favoreceu certamente a conservação de modos de vida tradicionais. Respeita-se muito o período da gravidez, o tempo sucessivo ao nascimento do herdeiros e os conceitos de impureza ligados ao nascimento. O aleitamento dura muito tempo, em algumas vezes prolongando-se por anos. No casamento, tende-se a escolher um parceiro dentro do próprio grupo, preferencialmente com vantagens econômicas. É possível um rom casar-se com uma gadjí (mulher não-cigana), mas ela deverá submeter-se as regras e tradições do povo. O sistema de dote é naturalmente vigente. Aos filhos é dada grande liberdade e no futuro devem contribuir com o sustento da família e o cuidado com os menores. No que se refere à morte, o luto duro muito tempo. Entre os ritos fúnebres há o costume de queimar os objetos pertencentes ao morte e fazer um banquete no qual se celebra o aniversário da morte da pessoa. A abundancia nos alimentos e bebidas expressam o desejo de paz e felicidade para o defunto.
Nômades, por sua própria natureza, não suportam a presença de um chefe. Essa figura não existe entre os roma, entretanto, é guardado o respeito com os mais velhos, que são sempre solicitados para aconselhar em eventuais controvérsias. Entre os roma, a máxima autoridade é o krisnitóri, isto é, aquele que preside a kris. A kris é o tribunal rom, constituídos pelos membros mais velhos do grupo. São reunidos em casos especiais para resolver problemas delicados como controvérsias matrimoniais ou ações que resultem a danos a membros do grupo. Na kris podem participar mulheres, mas a decisão cabe aos anciãos. Atualmente a controvérsia é resolvida, em geral, com o pagamento proporcional ao tamanho da culpa. No passado, culpas graves eram punidas com o afastamento do grupo ou castigos físicos. A visão dos ciganos em relação ao idosos é semelhante à de uma enciclopédia viva. Sua experiência e sabedoria são sempre procuradas para resolver questões e situações difíceis. Seus conselhos são aceitos pela comunidade e respeitados como lei.
Um dos principais conceitos para os ciganos é a liberdade. Sob os aspectos da vida cigana, liberdade é a prática de tudo aquilo que não é proibido por lei. A natureza dos ciganos é livre, daí vem sua necessidade í vem sua necessidade de viver em campo aberto, ter contato com a terra, contemplar a lua, o brilho das estrelas. Suas crianças, de um modo geral, correm por bosques, se deitam na relva, brincam com os elementos da natureza. Para eles, até mesmo as chuvas fortes tem o objetivo de limpar a negatividade e sanear o comportamento negativo dos seres vivos que habitam o planeta.
O código de ética e religiosidade para a manutenção dos dons dos ciganos consiste em 12 mandamentos:
- amar a Deus acima de tudo e respeitar todos os santos.
- respeitar a Semana Santa.
- Respeitar todas as religiões e credos que elevem o nome de Deus.
- ajudar-se mutuamente.
- amar e não desmerecer as crianças.
- respeitar os idosos e não desprezar sua sabedoria.
- não mostrar o corpo.
- não se prostituir.
- manter a fidelidade entre os casais.
- não se envergonhar de sua origem.
- não deixar de praticar o dom da adivinhação.
- não trair seu povo.
Santa Sara Kali é a padroeira dos roma. Algumas lendas a identificam como uma serva de uma das três mulheres chamadas Maria que acompanhavam Jesus e estavam em sua crucificação: Maria Jacobina (irmão de Maria, mãe de Jesus), Maria Salomé (mãe dos apóstolos Tiago e João) e Maria Madalena. Seu centro de culto é a cidade de Saintes-Maries de la Mer, em Camarga, província de Lanquedoc, sul da França onde ela teria chego juntamente com as Marias, Marta, Lázaro e Maximino. Eles teriam sido jogados ao mar em um barco sem remos ou comida. Sara teria rezado e prometido que se chegassem a um lugar sãos e salvos, passaria o resto de seus dias com um lenço em sua cabeça. Chegaram a Saintes-Maries, onde foram amparadas por um grupo de ciganos.
A imagem de Santa Sara fica na cripta da igreja de Saint Michel, onde estão seus ossos. Kali significa negra, por sua pele escura (culto das Madonas Negras). Sua festa é celebrada nos dias 24 e 25 de maio, levando ciganos de todo o mundo a cidade. Sua imagem é coberta por lenços, e é considerada a protetora da maternidade. Mulheres ciganas que não conseguem engravidar pedem a Santa Sara a graça e depositam lenços aos seus pés.
No Brasil, é muito reverenciada entre os ciganos Iemanjá. As homenagens são prestadas em 31 de dezembro levando flores e presentes para serem depositados no mar. As datas mais importantes para os roma são o Natal, Páscoa, o dia da comemoração do seu santos protetor e a Semana Santa. Nossa Senhora Aparecida é a padroeira dos ciganos no Brasil. O dia 12 de outubro, consagrado à santa, é um dia festivo e sagrado para os ciganos.
O nomadismo cigano, além das razões intrinsecamente orgânicas, tem motivos ligados ao fortalecimento da aura e sentidos. Mesmos os roma de hábitos sedentários, acampam de vem em quando para se energizarem. A necessidade dessa troca de energia com a natureza é tão intenso que o local onde os ciganos permanecem fica com seu espaço físico totalmente devastado, ao ponto de não crescer nada lá por algum tempo.
Por serem um povo nômade e terem sentido de liberdade muito forte, de um modo geral, não se adaptam a profissões rotineiras. Alguns roma acabam se dedicando a atividades que lhes parece mais favoráveis ao modo de vida como músicos, dançarinos, atores, vendedores, comerciantes, artesões, etc. os ciganos da Espanha foram os pioneiros na criação dos cavalos Andaluz, resultado do acasalamento de corcéis árabes com cavalos espanhóis. Até onde se sabe, os ciganos foram os percussores da arte circense e predominam nessa área até os dias atuais.
O símbolo da mulher cigana são os pés descalços. A mulher cigana, embora não exerça o papel de liderança total idêntico ao do homem, possui expressivo grau de responsabilidade e é considerada a estrutura básica da família. É a protetora espiritual e material da família. Para a mãe cigana, a criança precisa de liberdade de expressa e movimento para se tornar forte, saudável e desbloqueada. As meninas sempre estão próximas da mãe participando de tarefas domesticas, cuidando dos menores e aprendendo as peculiaridades da cultura. É tradição entre os ciganos o casamento com a mulher virgem. Ao nascerem, os bebês ciganos realizam o ritual do primeiro banho da sorte.
Em uma bacia colocam-se água natural e pura, alguns objetos de ouro, pétalas de rosas brancas. Este banho representa a intenção de proteção e prosperidade. O banho é feito pela mãe que pronuncia orações de seus antepassados em benefício de seu bebê cigano. A escolha do nome da criança é de vital importância para os ciganos. Além do nome que será conhecido por todos e servirá para identificá-lo, logo que a criança nasce à mãe “sopra” em seu ouvido o nome que fica em segredo com ela por toda a vida. Este nome não é registrado ou comentado. É considerado um ponto de referencia espiritual entre mãe e filho e somente é invocado em casos de extrema necessidade. O símbolo do homem é o cravo vermelho, relacionado com a astúcia.
Na tradição antiga, quando existia uma grande amizade entre amigos de muitos anos e eles pretendiam que suas famílias se tornassem uma só, era comum a realização de compromissos entre os filhos deles. Alguns desses compromissos eram firmados na fase de gestação ou quando seus filhos são pequenos. Raramente há recusa entre as partes, pois os ciganos consideram o matrimonio um ato de consagração divina para a formação da família e um importante laço para a perpetuação. O mais belo dos rituais realizados pelos ciganos é a cerimônia do noivado, celebrada com o uso dos punhais. O punhal da noiva é enfeitado com pedras e o do noivo, sóbrio. No dia do noivado, na presença de familiares e amigos, os punhas são trocados e guardados até o dia do casamento. O punhal da noiva é guardado em um lenço vermelho de seda e que será utilizado novamente no dia da cerimônia de casamento quando unirá os pulsos dos noivos em outro ritual. Posteriormente o lenço servirá para envolver os dois punhais e serem guardados pelo resto da vida. Na cerimônia de casamento não podem falta, além dos punhais, o vinho (para que nunca falte alegria e felicidade), o pão e o sal (representando a união; quando o pão e o sal perderem o sabor, não haver mais amor um pelo outro); uma taça de cristal (para manter harmonia e a liderança transparente entre os dois). Após beberem o vinho da taça, ela é arremessada ao chão pelo noivo. Os punhais são usados para fazer um pequeno corte no pulso dos noivos, e unidos pelo lenço, representando a união perpetua entre os dois. A cerimônia é festejada pro dois dias consecutivos cabendo ao pai do noivo, arcar com todas as despesas de seu filho de futura nora. No primeiro dia os noivos vestem branco e no segundo vermelho decorado com enfeites dourados. Segundo a tradição, o filho caçula, ao se casar deverá permanecer com seus pais para cuidar deles e herdará a casa que estiver morando e todos os seus pertences. Por não usarem alianças como símbolo de casamento, os ciganos usam um brinco de argola na orelha esquerda e as mulheres usam o lenço na cabeça (moças solteiras usam uma tiara com pequenas medalhas).
É comum a relação feita entre o misticismo e os ciganos. Segundo alguns, os roma tem poderes de cura através de plantas, proteção de amuletos e com sua vidência, evitam os males e tragédias. Os ciganos transmitem energia pelo olhar e captam a mensagem do interlocutor por intermédio do olho místico (localizado no meio da testa e no centro da palma da mão). O dom da vidência dos ciganos é considerado por eles divino e as previsões podem ser feitas por objetos como pedras comuns, moedas, borra de café, copos de água, bola de cristal, leitura de mãos e jogos de cartas e tarot. A leitura de mãos não é usada somente para ler a sorte, mas também para verificar se a pessoa tem algum tio de enfermidade para que seja estudada a cura. Os ciganos não fazem bruxarias, mas tem o poder de desmanchar feitiços. Os elementos da natureza têm importância vital para os ciganos. A vela é uma das forças primordiais para alguns dos rituais religiosos porque contem os quatro elementos fundamentais da natureza. O fogo na chama, a água na cera, a terra no pavio e o ar na chama. Em rituais ciganos são utilizados elementos em sua preparação como cálice de cristal com água pura, cesto de vime com frutas frescas e não ácidas (melão, pêssego, uva vermelha, maçã, pêra, ameixa, goiaba e morango assim como ramos de trigo). O ritual é sempre feito ao ar livre e a água do cálice colocada em plantas próximas. O certo com as frutas e trigo são colocados em um estrada em linha reta e oferecida a falando do Povo Cigano.











